
A inoculação de milho com a rizobactéria Azospirillum brasilense favoreceu o desenvolvimento da lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda) e aumentou a atração do parasitoide Aleiodes ceres. Pesquisadores da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz identificaram respostas distintas da praga e de seu inimigo natural à bactéria utilizada na promoção do crescimento vegetal.
Os pesquisadores avaliaram a estirpe Ab-V5 de Azospirillum brasilense em plantas de milho não Bt, da cultivar BRS 4103 (doi 10.1111/pce.70955). A inoculação aumentou em 27,5% o comprimento das raízes e elevou a concentração de fósforo nas folhas. A equipe não identificou diferenças significativas na massa seca das raízes e das folhas. O teor foliar de nitrogênio também permaneceu semelhante entre os tratamentos.
Melhor desempenho
O ganho nutricional coincidiu com melhor desempenho de Spodoptera frugiperda. Lagartas alimentadas com folhas de plantas inoculadas apresentaram maior peso durante a fase larval. O efeito persistiu na fase de pupa, com peso superior ao observado no grupo de controle. O período de desenvolvimento larval caiu 4,04%. O intervalo total entre a fase de larva e a emergência do adulto diminuiu 2,71%.
A inoculação não alterou significativamente a sobrevivência das lagartas nem a duração da fase pupal. Os resultados contrariam a hipótese inicial de redução do desempenho da praga após a associação do milho com a rizobactéria. A maior concentração foliar de fósforo pode ter contribuído para o crescimento dos insetos. Contudo, a pesquisa não estabeleceu uma relação causal entre o nutriente e o desenvolvimento das lagartas.
Para examinar esses efeitos, a equipe ofereceu folhas frescas de milho inoculado ou não inoculado a lagartas de segundo ínstar, sob condições controladas. Cada tratamento contou com 45 repetições. Os cientistas acompanharam peso, sobrevivência larval e tempo de desenvolvimento até a emergência do adulto. A avaliação nutricional utilizou folhas coletadas 20 dias após a emergência das plantas.
Inimigo natural
A resposta do inimigo natural seguiu outra direção. Fêmeas de Aleiodes ceres preferiram os odores liberados por plantas inoculadas, tanto na ausência de herbivoria quanto após o ataque de Spodoptera frugiperda. A preferência ocorreu nas comparações com plantas não inoculadas sob a mesma condição de dano. O parasitoide ataca lagartas de segundo e terceiro ínstares e apresenta potencial para programas de controle biológico.
Os cientistas realizaram testes em olfatômetro de tubo em Y, equipamento capaz de apresentar duas fontes de odor ao inseto. Cada comparação incluiu 30 fêmeas com resposta ao estímulo. Entre plantas sem inoculação, as vespas preferiram as atacadas pela lagarta às intactas. Também escolheram o odor de plantas danificadas e inoculadas em vez daquele de plantas danificadas sem a bactéria.
Compostos orgânicos voláteis
A análise química detectou 31 compostos orgânicos voláteis liberados pelo milho. O ataque da lagarta provocou a principal diferença no perfil de emissão. Plantas danificadas liberaram quantidades totais maiores desses compostos em comparação às plantas intactas. A inoculação, isoladamente, não elevou a emissão total. No entanto, modificou a composição da mistura de substâncias liberadas.
Entre as alterações, os pesquisadores detectaram indol em plantas inoculadas sem ataque de lagartas. O composto não apareceu nas plantas intactas sem inoculação. O beta-cariofileno, por sua vez, apareceu apenas nas plantas danificadas não inoculadas. A emissão de TMTT também apresentou valores menores nas plantas atacadas após inoculação. Esses compostos participam de processos de sinalização associados à defesa vegetal, mas o experimento não determinou a contribuição individual de cada substância para a atração do parasitoide.
Possível interferência
Os resultados apontam uma possível interferência de Azospirillum brasilense nas relações entre planta, herbívoro e inimigo natural. A inoculação favoreceu características do milho associadas à nutrição e, ao mesmo tempo, melhorou o desempenho de uma praga. Também modificou sinais químicos ligados à orientação de Aleiodes ceres.
A pesquisa avaliou a orientação das vespas pelos odores em laboratório. Não mediu a localização efetiva das lagartas, as taxas de parasitismo ou a mortalidade provocada pelo parasitoide. Portanto, a maior atração não comprova redução da população da praga nem compensação do aumento de seu desempenho. A equipe também não quantificou a colonização das raízes pela bactéria nem analisou o perfil metabólico e as defesas químicas diretas do milho.
O trabalho foi realizado pelos cientistas Isabella Rubio Cabral, Kamila Emmanuella Xavier de Azevedo, Diego Martins Magalhães, Felipe Goulart Gonçalves, Arodí Prado Favaris, Kátia Kaelly Andrade Sousa e José Maurício Simões Bento.
