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Aperto monetário eleva custo do crédito rural, indica RaboResearch


Aperto monetário eleva custo do crédito rural, indica RaboResearch

A política monetária encarece o crédito rural e produz efeitos mais intensos sobre produtores pessoa física. Estudo da RaboResearch aponta aumento dos juros e da inadimplência após choques inesperados na taxa Selic. Entre pessoas jurídicas, a transmissão aparece com menor intensidade. A presença de linhas direcionadas e subsidiadas do Plano Safra ajuda a reduzir o repasse das oscilações da taxa básica ao financiamento agropecuário.

A análise estima os efeitos dos choques monetários em horizontes de três, seis, nove e doze meses. Para pessoas físicas, a inadimplência aumenta cerca de 0,1 ponto percentual entre seis e doze meses depois do choque. O efeito sobre as taxas de juros também aparece com maior clareza nesse grupo. Aos doze meses, o impacto estimado sobre o custo do crédito alcança 0,73 ponto percentual, com significância estatística de um por cento.

Transmissão mais limitada

Nas pessoas jurídicas, o estudo identifica uma transmissão mais limitada. O efeito sobre o custo do crédito perde persistência e a inadimplência apresenta pouca resposta. As concessões, por outro lado, registram aumento estimado de 0,37 ponto percentual seis meses após o choque, com significância estatística de dez por cento.

Segundo os analistas, os resultados indicam funcionamento do canal de transmissão da política monetária no crédito rural. A intensidade varia entre os segmentos. O principal impacto recai sobre o custo do financiamento. Os efeitos sobre concessões e estoque de crédito aparecem de forma mais moderada.

Condições de renda

A RaboResearch também relaciona a inadimplência às condições de renda do setor agropecuário. A evolução dos atrasos não acompanha os ciclos da Selic de maneira uniforme. Preços agrícolas e custos de produção interferem na capacidade de pagamento e podem compensar, ou ampliar, os efeitos dos juros.

No ciclo de aperto monetário de 2013 a 2014, a alta dos juros coincidiu com preços favoráveis de soja e milho. Os custos dos fertilizantes permaneceram relativamente estáveis. Esse ambiente permitiu expansão do crédito rural sem deterioração relevante da inadimplência. A geração de receita compensou parte do aumento do custo financeiro.

Situação semelhante ocorreu em 2021 e 2022. A Selic subiu e os insumos encareceram. O estudo associa parte desse movimento ao choque global provocado pela guerra entre Rússia e Ucrânia. Ao mesmo tempo, os preços das commodities agrícolas permaneceram em patamares historicamente elevados. Esse cenário sustentou o fluxo de caixa do setor e manteve a inadimplência sob controle.

O ciclo de 2024 e 2025 trouxe uma combinação menos favorável. Os juros do crédito rural permaneceram elevados. Os preços da soja e do milho recuaram em relação aos picos anteriores. Os custos dos fertilizantes iniciaram processo de normalização. A compressão das receitas passou a coincidir com aumento mais evidente da inadimplência, sobretudo entre pessoas físicas.

No fim da série analisada, entre 2024 e 2026, a inadimplência das pessoas físicas avançou e alcançou cerca de sete por cento. Nas pessoas jurídicas, a trajetória apresentou comportamento distinto. Entre 2019 e 2021, houve um movimento atípico associado a medidas excepcionais adotadas durante a pandemia. Essas medidas permitiram prorrogação e renegociação de operações de crédito rural e postergaram o reconhecimento de atrasos superiores a 90 dias.

Taxas de juros

As taxas de juros do crédito rural, por sua vez, acompanharam com maior proximidade os ciclos de aperto monetário. Nos ciclos de 2021 a 2023 e de 2024 a 2025, os juros cobrados de pessoas jurídicas se aproximaram ou ultrapassaram 14% ao ano em alguns momentos. Para pessoas físicas, as taxas permaneceram em níveis inferiores, mas também seguiram trajetória de alta.

As concessões de crédito rural apresentaram forte volatilidade. Entre 2021 e o início de 2022, o crescimento superou 60% na comparação anual, com liderança das pessoas físicas. Em 2023, ocorreu correção, mais intensa nesse segmento. Em 2024, as pessoas jurídicas lideraram nova aceleração e também registraram picos superiores a 60%. No início de 2025, o ritmo voltou a perder força. Em 2026, os dados indicaram recomposição moderada do crescimento agregado, com diferenças entre pessoas físicas e jurídicas.

Para a RaboResearch, juros elevados não provocam, de forma isolada, deterioração relevante da qualidade do crédito rural. A resposta depende também da geração de renda no campo. Ciclos de preços agrícolas elevados podem amortecer o efeito financeiro. Em períodos de receita menor, o mesmo patamar de juros tende a ampliar a inadimplência e o risco de crédito no setor rural.

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