
Pesquisadores da Universidade Federal de Lavras identificaram ajustes na criação laboratorial da tesourinha Doru luteipes capazes de ampliar a produção de ninfas para programas de controle biológico. O estudo indica vantagens na proporção de um macho para três fêmeas, no agrupamento de até cinco posturas por recipiente e no aumento do número de fêmeas por arena de criação.
A pesquisa avaliou os efeitos da densidade de posturas, da proporção entre machos e fêmeas e da disponibilidade de abrigos para oviposição sobre o desempenho reprodutivo do predador. Os experimentos demonstraram influência dessas condições sobre a mortalidade, o canibalismo de ovos e a produção de descendentes.
A espécie Doru luteipes atua como inimigo natural de pragas agrícolas, principalmente em lavouras de milho. Entre suas presas encontram-se a lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda), a cigarrinha-do-milho (Dalbulus maidis), pulgões e tripes. A criação em laboratório permite desenvolver pesquisas e protocolos destinados à multiplicação do inseto para uso em programas de manejo integrado de pragas.
Proporção sexual
No experimento sobre proporção sexual, os pesquisadores iniciaram cada arena com 30 fêmeas e com quantidades de machos que variaram entre dez e 50 indivíduos. Os insetos que morreram não foram repostos, e as avaliações ocorreram durante oito semanas.
As arenas com dez machos e 30 fêmeas produziram, em média, 1.230 ninfas. A combinação de 20 machos e 30 fêmeas resultou em 1.254 ninfas. Nos tratamentos com 30, 40 e 50 machos, as médias alcançaram 995, 1.116 e 996 ninfas, respectivamente.
Mais machos
O aumento da quantidade de machos elevou a mortalidade de indivíduos de ambos os sexos. Entretanto, as diferentes proporções não provocaram alterações significativas no número de posturas ou na taxa de eclosão das ninfas.
Os resultados indicam a possibilidade de reduzir a população masculina sem comprometer os parâmetros reprodutivos avaliados. A proporção de um macho para três fêmeas apresentou desempenho favorável e menor mortalidade em comparação aos tratamentos com maior presença de machos.
Agrupamento de posturas
Outro experimento investigou o efeito do agrupamento de posturas sobre o desenvolvimento dos descendentes. Os cientistas utilizaram recipientes com uma, cinco, dez ou 15 posturas, acompanhadas das respectivas fêmeas durante o cuidado materno.
O canibalismo total atingiu 5% das posturas mantidas individualmente. Nos recipientes com cinco, dez e 15 posturas, os índices alcançaram 17%, 15% e 24%, respectivamente. As três maiores densidades não apresentaram diferenças estatísticas entre si.
Densidade de posturas
A densidade de posturas não alterou o período de desenvolvimento embrionário, a taxa de eclosão ou a ocorrência de canibalismo parcial dos ovos. Entretanto, influenciou a sobrevivência das ninfas nos primeiros estágios de desenvolvimento.
Nos recipientes com uma postura, 81% das ninfas alcançaram o segundo ínstar, percentual significativamente superior aos registrados nas unidades com dez e 15 posturas, de 62% e 66%, respectivamente. Nos recipientes com cinco posturas, a sobrevivência foi de 73%, valor intermediário que não diferiu estatisticamente dos demais tratamentos.
Embora os recipientes com maior quantidade de posturas tenham produzido mais ninfas em números absolutos, a sobrevivência proporcional diminuiu nas densidades elevadas. Os tratamentos com uma, cinco, dez e 15 posturas produziram, em média, 19, 69, 114 e 158 ninfas por recipiente, respectivamente.
Diante desses resultados, os pesquisadores recomendam reunir até cinco posturas por recipiente de 9,5 por 7,5 centímetros, nas condições avaliadas. Essa densidade permite aproveitar o espaço disponível e limitar os efeitos da competição durante o desenvolvimento inicial.
Para experimentos destinados à avaliação da eclosão dos ovos, a equipe recomenda manter as posturas individualizadas. A medida reduz possíveis interferências do estresse e do canibalismo sobre os resultados.
População de fêmeas
A pesquisa também avaliou o aumento da população de fêmeas sem ampliar a quantidade de abrigos para oviposição. Os tratamentos utilizaram dez machos e 30 fêmeas, 15 machos e 45 fêmeas ou 20 machos e 60 fêmeas. Todas as arenas receberam 30 abrigos.
A produção média alcançou 1.381 ninfas no primeiro tratamento, 1.887 no segundo e 2.281 no terceiro, durante oito semanas. As diferenças apresentaram significância estatística.
O aumento da densidade populacional também elevou a mortalidade de machos e fêmeas. Apesar disso, as arenas com maior população feminina produziram mais posturas e descendentes. As taxas de eclosão não apresentaram diferenças significativas entre os tratamentos.
Comportamento maternal
A equipe relaciona parte das oscilações reprodutivas ao comportamento maternal da espécie. As fêmeas podem dedicar até 12 dias ao cuidado dos ovos e necessitar de aproximadamente 11 dias adicionais antes da postura seguinte. A manutenção de mais fêmeas por arena permite a continuidade da oviposição durante o período de cuidado maternal de outros indivíduos.
Os experimentos ocorreram sob condições controladas de temperatura, umidade relativa e fotoperíodo. A temperatura permaneceu em 25 graus Celsius, com variação de dois graus, e a umidade relativa em 70%, com variação de dez pontos percentuais. O fotoperíodo foi de 14 horas de luz e dez horas de escuro.
O estudo também aponta a necessidade de novas avaliações sobre os efeitos da densidade de criação na qualidade dos insetos adultos. Outra preocupação envolve possíveis consequências genéticas da redução do número de machos em colônias mantidas durante períodos prolongados.
Os pesquisadores sugerem misturar adultos provenientes de diferentes recipientes na formação de novas arenas reprodutivas. A prática pode contribuir para reduzir os riscos de endogamia e preservar a diversidade genética das colônias (doi 10.1007/s10526-026-10437-2).
A pesquisa foi conduzida por Ana Luisa Rodrigues-Silva, Patrick Lopes Gualberto e Rosangela Cristina Marucci.
