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Abelhas melíferas dominam flores e afastam outros polinizadores


Abelhas melíferas dominam flores e afastam outros polinizadores
Foto: Alberto Marsaro Júnior / Embrapa

A maior densidade de abelhas melíferas (Apis mellifera) reduziu a abundância de outros visitantes florais e aumentou a frequência de disputas por alimento em áreas do Reino Unido. Os pesquisadores registraram perseguições, deslocamentos e comportamentos de esquiva durante encontros sobre flores. As observações apontam a competição por interferência como um mecanismo relevante na disputa entre abelhas manejadas e outros polinizadores.

O trabalho acompanhou visitantes de Rubus fruticosus e Hedera helix. As duas plantas fornecem recursos importantes em períodos com menor disponibilidade de outras flores. As observações ocorreram em Cambridgeshire, no Reino Unido, durante 2023 e 2024. Os locais ficavam a até 300 metros de colônias conhecidas de Apis mellifera. Os pesquisadores acompanharam 300 pares de interações durante 93 horas (doi 10.1111/een.70139).

A equipe classificou o resultado de cada encontro conforme o acesso ao recurso floral. Um indivíduo recebia a classificação de vencedor quando conseguia ocupar a flor e provocava perda de oportunidade de forrageamento para o outro visitante. Os cientistas também registraram situações de compartilhamento, quando dois insetos utilizavam o recurso sem confronto.

Associação negativa

A presença de Apis mellifera apresentou associação negativa com a abundância dos demais polinizadores nas duas espécies vegetais. Em Rubus fruticosus, o levantamento contabilizou 1.789 visitantes florais. Abelhas melíferas responderam por 57% desse total. Mamangavas representaram 23%, sirfídeos 11%, abelhas solitárias 7% e outros visitantes 2%. A maior densidade de Apis mellifera apresentou relação significativa com menor abundância relativa de visitantes não pertencentes ao gênero Apis. O efeito apareceu com maior força entre as mamangavas.

Em Hedera helix, os pesquisadores registraram 2.232 visitantes distribuídos em 30 grupos taxonômicos. Abelhas solitárias formaram 41% do total, com predominância de Colletes hederae. Abelhas melíferas representaram 27%. O aumento da densidade de Apis mellifera acompanhou uma redução na abundância de abelhas solitárias e sirfídeos. O número de unidades florais também influenciou a abundância dos visitantes.

Os pesquisadores registraram 171 pares de interações durante 43 horas de observação em Rubus fruticosus. Abelhas melíferas participaram de 53,3% dos encontros. Elas obtiveram acesso ao recurso em 65,7% das interações nas quais ocorreram disputas. A proporção de vitórias superou o valor esperado pela análise estatística. Abelhas solitárias perderam acesso ao recurso em 61,5% dos encontros. Sirfídeos perderam em 66,6%.

Frequência das disputas

A frequência das disputas em Rubus fruticosus cresceu com o aumento da densidade e do número de visitas de Apis mellifera. O estudo também encontrou influência de variáveis ambientais. Temperatura e umidade apresentaram associação positiva com as interações competitivas em algumas análises. Velocidades maiores do vento acompanharam menor número de disputas.

Os comportamentos observados reforçaram a hipótese de competição por interferência. Em Rubus fruticosus, outros visitantes evitaram abelhas melíferas em 28,4% das vitórias registradas para Apis mellifera. O deslocamento físico do outro visitante ocorreu em 20,1% das vitórias. Perseguições apareceram em 6,1%. Em 14 episódios com perseguição, a abelha melífera iniciou a ação em 80% dos casos.

O padrão também apareceu em Hedera helix. O levantamento somou 129 interações durante 50 horas. Abelhas melíferas alcançaram o maior número de vitórias competitivas e ocuparam o recurso em 50,6% dos encontros. Outros visitantes evitaram Apis mellifera em 35,6% das vitórias da espécie. Deslocamentos responderam por 15% e perseguições por 5,5%.

Maior vulnerabilidade

Os sirfídeos mostraram maior vulnerabilidade nos encontros. Em interações com abelhas melíferas sobre Hedera helix, metade dos sirfídeos evitou a abelha, 44% sofreram deslocamento e 6% sofreram perseguição. No conjunto das interações nessa planta, o grupo perdeu o recurso em 60,4% dos casos. A análise dos comportamentos também apontou associação significativa entre o grupo de polinizadores e o tipo de interação. Deslocamentos e perseguições executados por Apis mellifera tiveram contribuição importante para esse resultado.

Padrão diverso

Nem todas as abelhas solitárias apresentaram o mesmo padrão diante de Apis mellifera. Em Hedera helix, indivíduos de Colletes hederae conseguiram obter o recurso em parte dos encontros com abelhas melíferas. Quando Apis mellifera ocupava previamente a flor e uma abelha solitária chegava ao local, o grupo das solitárias venceu com frequência superior à registrada para a abelha melífera. Os pesquisadores apontam a necessidade de novos estudos sobre características de Colletes hederae capazes de reduzir os efeitos da competição por interferência.

O estudo diferencia esse processo da competição por exploração. Na competição por exploração, um visitante consome néctar ou pólen e reduz a disponibilidade para outros insetos. Na competição por interferência, a interação ocorre de forma direta. Um visitante afasta, desloca ou impede o acesso de outro ao recurso. Os resultados indicam participação dos dois mecanismos, mas destacam uma importância possivelmente subestimada da interferência nas comunidades de polinizadores.

Os cientistas ressaltam o foco das observações em duas espécies vegetais e em interações na escala de manchas florais. O trabalho não avaliou efeitos populacionais de longo prazo. A equipe propõe estudos adicionais em outros recursos, inclusive áreas cultivadas, além da análise de fatores ambientais e da paisagem. Segundo os pesquisadores, uma compreensão mais detalhada da competição por interferência pode apoiar medidas voltadas à redução dos efeitos de altas densidades de abelhas melíferas sobre outros polinizadores.

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