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Biomassa vira desafio para expansão do etanol de milho


Biomassa vira desafio para expansão do etanol de milho

A expansão do etanol de milho poderá elevar a demanda por biomassa e exigir novos investimentos em florestas energéticas no Brasil. Estudo da Consultoria Agro Itaú BBA estima necessidade de cerca de 816 mil hectares de eucalipto plantado em 2030, caso essa madeira responda por todo o suprimento energético das usinas. A projeção considera capacidade nacional próxima de 25,3 bilhões de litros de etanol de milho e consumo de 57 milhões de toneladas de milho.

A capacidade instalada de produção de etanol de milho no país deve avançar de 10,9 bilhões de litros, no final de 2025, para 25,3 bilhões de litros em 2030. O cálculo inclui projetos anunciados. Parte dos empreendimentos ainda depende de viabilidade econômica e pode não avançar.

Abastecimento energético

O abastecimento energético ganhou peso no planejamento das usinas. Parte da biomassa consumida hoje provém de supressão vegetal legalmente autorizada. Restrições ambientais e regulatórias aumentam a necessidade de fontes renováveis, com destaque para florestas plantadas.

Em um cenário de eficiência média, uma capacidade nacional de 13 bilhões de litros de etanol de milho, projetada para o fim de 2026, demandaria cerca de 35 milhões de metros cúbicos de biomassa de eucalipto. O suprimento contínuo exigiria estoque próximo de 440 mil hectares plantados e corte anual de cerca de 63 mil hectares.

O cálculo adota consumo de 2,6 toneladas de vapor por metro cúbico de etanol, eficiência de caldeira de uma tonelada de vapor por metro cúbico de cavaco e produtividade florestal de 35 metros cúbicos por hectare ao ano. O modelo considera ciclo de corte de sete anos e colheita anual equivalente a um sétimo da área total.

Desafio em Mato Grosso

Mato Grosso concentra parte relevante do desafio. A capacidade estadual deve passar de 6,9 bilhões de litros, em 2025, para 11,9 bilhões de litros em 2030. Com capacidade próxima de oito bilhões de litros, a demanda potencial corresponderia a cerca de 259 mil hectares de eucalipto. Uma produção de aproximadamente 12 bilhões de litros em 2030, associada ao consumo de 27 milhões de toneladas de milho, elevaria a necessidade para perto de 380 mil hectares. O corte anual alcançaria cerca de 55 mil hectares.

O Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária estimou 165,62 mil hectares de eucalipto no estado em 2025. Sob o cenário-base do Itaú BBA, Mato Grosso precisaria adicionar perto de 218 mil hectares de florestas energéticas para atender à demanda projetada do etanol de milho.

O investimento necessário também alcança cifras elevadas. O estudo usa custo de implantação e condução de 35 mil reais por hectare ao longo de 13 anos. Com essa referência, a expansão florestal necessária no estado demandaria cerca de 7,6 bilhões de reais. Em um cenário de menor eficiência industrial e florestal, a área necessária poderia chegar a 572 mil hectares. Nesse caso, o investimento subiria para aproximadamente 14,3 bilhões de reais.

Esmagamento de soja

A pressão por biomassa não parte apenas do setor de etanol. Mato Grosso reúne 26 unidades de esmagamento de soja, com capacidade próxima de 18 milhões de toneladas por ano, além de 1.675 unidades armazenadoras, com capacidade estática ao redor de 55 milhões de toneladas. Frigoríficos e estruturas de secagem também utilizam madeira, cavacos e outros materiais para geração de energia térmica.

Estimativas preliminares do Itaú BBA atribuem pouco mais de 60% do consumo estadual de biomassa à indústria de etanol de milho. O restante fica distribuído entre outras atividades agroindustriais, com destaque para esmagadoras e unidades armazenadoras. Esse conjunto amplia a competição pelo insumo.

Papel da logística

A logística também interfere na competitividade. Segundo o estudo, raios de abastecimento superiores a 150 a 200 quilômetros começam a pressionar o custo da biomassa entregue, principalmente em regiões com infraestrutura limitada. Florestas próximas às usinas podem reduzir despesas de transporte e melhorar a segurança do fornecimento.

Mato Grosso adotou um cronograma para reduzir o uso de biomassa oriunda de supressão de vegetação nativa por grandes consumidores. O acordo firmado entre o governo estadual e o Ministério Público de Mato Grosso prevê prioridade para florestas plantadas, manejo florestal sustentável e outras fontes renováveis. A normativa considerada pelo estudo limita o uso de biomassa nativa a até 40% até 2034 e prevê eliminação dessa fonte a partir de 2035 para indústrias já instaladas no estado, inclusive empreendimentos à espera de licença ambiental.

Alternativa para áreas

O avanço dos plantios pode abrir uma alternativa para áreas de menor aptidão agrícola. Na simulação econômica do Itaú BBA, um projeto de eucalipto com dois cortes ao longo de 13 anos gera receita acumulada de 104 mil reais por hectare e lucro próximo de 54 mil reais por hectare. O resultado médio alcança cerca de 4,2 mil reais por hectare ao ano.

A análise considera produtividade de 280 metros cúbicos sólidos por hectare no primeiro ciclo, com sete anos, e 240 metros cúbicos sólidos por hectare no segundo, com seis anos. O preço da madeira foi fixado em 200 reais por metro cúbico sólido. O custo operacional efetivo acumulado alcança 35 mil reais por hectare, sem arrendamento.

Taxa de atratividade

Com taxa mínima de atratividade de 14% ao ano, o projeto apresentou Valor Presente Líquido de 4,3 mil reais por hectare e Taxa Interna de Retorno de 17% ao ano. O estudo também aponta forte sensibilidade ao preço da madeira e ao custo de capital. Com desconto de 14% ao ano, o Valor Presente Líquido passa ao campo negativo quando a madeira se aproxima de 175 reais por metro cúbico.

O Itaú BBA ressalta o caráter indicativo das estimativas. O exercício considera o eucalipto como única fonte de suprimento para dimensionar a ordem de grandeza da demanda. Resíduos agrícolas e agroindustriais, bambu, casca de arroz, bagaço e palha de cana, além de capins energéticos, podem integrar a matriz. Ganhos de eficiência em caldeiras e processos industriais também podem reduzir o consumo de biomassa.

Nesse ambiente, contratos de longo prazo ganham importância para produtores e indústrias. Maior previsibilidade de demanda e preços pode reduzir o risco associado ao ciclo florestal e estimular novos investimentos em áreas destinadas à produção de energia.

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