
Pesquisadores identificaram um mecanismo de absorção de nutrientes em Cyathea rojasiana, espécie de samambaia arborescente endêmica do Panamá. A planta transforma estruturas vasculares de folhas mortas em raízes funcionais. O processo permite ampliar a exploração do solo e captar nutrientes.
A descoberta ocorreu na Reserva Florestal de Fortuna, no oeste do Panamá. No local, a população estudada ocupa solos com disponibilidade extremamente baixa de nitrogênio e fósforo. Nessas condições, folhas envelhecidas se inclinam até tocar o solo. Durante a decomposição, a lâmina foliar e os tecidos internos da ráquis apodrecem. Resta um cilindro oco, formado por uma bainha externa resistente, que envolve feixes vasculares intactos. Essas estruturas originam raízes capazes de penetrar no solo.
A equipe liderada por James W. Dalling, da Universidade de Illinois, identificou o fenômeno por acaso em 2019, durante uma coleta de raízes de Podocarpus. Os cientistas observaram folhas mortas fixadas ao solo por raízes desenvolvidas a partir da ráquis, estrutura central de sustentação da folha.
Para verificar a capacidade de absorção, os pesquisadores fizeram um experimento em fevereiro de 2022 com três plantas adultas. Eles aplicaram uma solução de cloreto de amônio marcada com nitrogênio-15 em recipientes contendo raízes originadas das folhas mortas.
Após um mês, análises das folhas novas revelaram aumento significativo nos valores de δ¹⁵N, indicador do enriquecimento em nitrogênio-15. O resultado é compatível com a absorção e a transferência de nitrogênio pelas estruturas reaproveitadas.
Segundo os pesquisadores, o mecanismo parece ser uma forma pouco custosa de ampliar a área em que a planta busca nutrientes. Como reaproveita tecidos vasculares já existentes, a samambaia expande a exploração do solo sem desenvolver estruturas inteiramente novas. Isso pode ser vantajoso em ambientes de baixa fertilidade.
O fenômeno ainda não havia sido documentado em samambaias arborescentes. Os cientistas não visitaram as outras populações conhecidas da espécie, no leste do Panamá, e não sabem se o comportamento também ocorre nelas. Os mecanismos responsáveis pela transformação dos tecidos e pela inversão do fluxo de água permanecem desconhecidos (doi 10.1002/ecy.4248).
